
Ragnar Lothbrok morre na série Vikings no final da quarta temporada, jogado em uma fossa de serpentes pelo rei Aelle da Nortúmbria. Antes de sucumbir às mordidas, o personagem criado por Michael Hirst pronuncia um discurso que se tornou cult entre os fãs. Essas últimas palavras misturam desafio, profecia e aceitação da morte, mas sua origem vai muito além do contexto da série de televisão.
O Krákumál, poema fonte das últimas palavras de Ragnar
A maioria das falas atribuídas a Ragnar Lothbrok no momento da morte não é uma invenção da série exibida no History Channel. Elas têm sua raiz em um texto nórdico chamado Krákumál, um canto fúnebre composto vários séculos após a época suposta do personagem.
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Este poema se apresenta como um monólogo pronunciado pelo próprio Ragnar desde a fossa de serpentes. Ele revisita suas batalhas passadas, evoca seus companheiros caídos e afirma sua certeza de que irá se juntar ao Valhalla.
O texto não se limita a uma única frase de impacto: é um conjunto poético completo, onde a morte serve como um quadro narrativo para uma vida de saques e conquistas. Um artigo detalhado discute a morte de Ragnar no Le Petit Castor analisando cada fala marcante dessa cena.
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A fórmula mais famosa do Krákumál, frequentemente citada como as « últimas palavras » de Ragnar, se traduz aproximadamente como: os porquinhos grunhirão se soubessem o que sofre o velho javali. Essa imagem antecipa a futura vingança de seus filhos, especialmente Ivar, Björn e Sigurd, contra o rei Aelle.
Variantes de tradução e transmissão instável do discurso de Ragnar
Um ponto raramente abordado pelos fãs da série: não existe uma versão única dessa fala. As traduções do velho nórdico para as línguas modernas produzem formulações diferentes, às vezes sensivelmente distantes umas das outras.
Algumas fontes traduzem a metáfora como « os porquinhos grunhirão se soubessem o que sofre o velho javali ». Outras preferem « quando o javali sangra, os leitões vêm ». O sentido permanece próximo (a prole vingará o pai), mas o tom muda. A primeira versão enfatiza o sofrimento suportado. A segunda destaca a inevitabilidade da resposta.

Essa instabilidade textual lembra que o Krákumál foi transmitido oralmente antes de ser registrado por escrito, provavelmente no século XII. Cada copista, cada tradutor introduziu suas próprias escolhas estilísticas. Falar das « últimas palavras exatas » de Ragnar equivale, portanto, a congelar um texto que, por natureza, nunca foi fixo.
O que Michael Hirst manteve e modificou para a série Vikings
O showrunner Michael Hirst baseou-se no Krákumál para escrever o discurso final de Ragnar na quarta temporada, mas o adaptou à dramaturgia televisiva. Na série, Ragnar se dirige diretamente ao rei Ecbert (com quem estabeleceu uma relação ambígua) antes de ser entregue a Aelle. Seu discurso mistura elementos do poema nórdico com reflexões pessoais sobre destino e deuses.
A fala « Eu escolhi meu próprio destino » não está no Krákumál. É uma adição de Hirst que corresponde ao arco narrativo do personagem ao longo das temporadas: um Ragnar que questiona a religião nórdica, dialoga com o cristianismo através de Ecbert e se recusa a se submeter a uma fatalidade divina.
Ragnar Lothbrok, figura lendária ou personagem histórico
Antes de tomar suas últimas palavras como verdadeiras, é preciso fazer uma pergunta prévia: Ragnar realmente existiu? Especialistas modernos consideram que Ragnar Lothbrok é uma figura composta, construída a partir de vários chefes vikings cujos feitos foram fundidos pela tradição oral e depois pelas sagas.
As principais fontes que mencionam Ragnar são:
- O Krákumál, canto fúnebre poético composto muito depois dos eventos supostos, que atribui a Ragnar um monólogo heroico desde a fossa de serpentes.
- A Saga de Ragnar das Calças Peludas (Ragnars saga loðbrókar), relato em prosa islandesa do século XIII que narra suas aventuras e sua morte.
- Os Gesta Danorum de Saxo Grammaticus, crônica dinamarquesa do século XII que menciona um personagem semelhante sem usar exatamente o mesmo nome.
Nenhuma dessas fontes é contemporânea dos eventos que descreve. Os dados disponíveis não permitem concluir que um único indivíduo chamado Ragnar Lothbrok pronunciou essas palavras em uma fossa de serpentes na Nortúmbria. A cena pertence ao relato lendário, não ao testemunho histórico.
A profecia dos filhos de Ragnar na série e nas sagas
O verdadeiro cerne das últimas palavras de Ragnar, seja no Krákumál ou na série de Michael Hirst, não é a morte em si. É o que vem depois.
A metáfora do javali e dos leitões anuncia diretamente a invasão da Inglaterra pelo Grande Exército Pagão, liderado segundo as sagas pelos filhos de Ragnar, incluindo Ivar o Desossado. Na série Vikings, essa promessa de vingança estrutura toda a sequência do relato após a quarta temporada. A morte de Ragnar não é um fim: é um gatilho narrativo.
O rei Aelle, carrasco de Ragnar, sofre nas sagas como na série o suplício da águia de sangue, uma forma de tortura ritual cuja autenticidade histórica ainda é debatida entre os pesquisadores. O destino de Ecbert é diferente na série, onde o personagem escolhe sua própria morte, mas o esquema permanece o mesmo: cada rei envolvido na morte de Ragnar paga o preço anunciado pelo discurso final.

Os últimos momentos de Ragnar Lothbrok funcionam como uma ponte, tanto na mecânica narrativa da série quanto na tradição literária nórdica. Suas palavras não documentam um fato histórico verificável. Elas têm uma função precisa: transformar uma derrota (a captura, a fossa, a morte) em ato fundador de uma vingança futura. É essa inversão que marcou os fãs, muito além do simples prazer da citação.